Inauguração Fábricas

Por Vitor Wagner Neto de Oliveira.
Prof. Dr. na UFMS/Campus de Três Lagoas.
vitorwagnern@yahoo.com.br
 
Publicado no Perfil News em 12 de dezembro de 2012
 
A mídia tem anunciado amplamente a inauguração da fábrica de celulose Eldorado Brasil no dia 12 de dezembro em Três Lagoas. Por unanimidade os deputados estaduais aprovaram a realização de uma sessão da Assembleia Legislativa no pátio da empresa, quando homenagearão dois diretores. Diversas autoridades públicas já confirmaram presença. A presidenta Dilma para confirmar, depende de ajustes em sua disputada agenda.

 
Diante do volume de recursos públicos investidos neste negócio privado, a presidenta, o governador, a prefeita e demais agentes públicos eleitos devem mesmo fazer parte da festa. Afinal, devem comprovar se estão sendo bem aplicados os investimentos diretos do setor público com o empréstimo de 2,7 bilhões do BNDES a taxas favoráveis, e indiretos por meio da isenção de impostos e implementação de infraestrutura. Pelo tamanho da festa, com direito a show internacional, o negócio já é um sucesso. Bem que poderiam tornar esta festa, também, pública. Mas isto seria impossível, porque é privada, inclusive a sessão da Assembleia Legislativa que deveria ser, por concepção, pública.
 
Como explicar esta subserviência do Estado à vontade da iniciativa privada? De fato, o liberalismo só se aplica na liberdade de negociar mercadorias, inclusive a mercadoria humana força de trabalho. No mais, vive sob as benesses do Estado parceiro.
Por que a Assembleia Legislativa não legisla – pois esta deve ser a função desta casa de leis – no sentido de aumentar o ganho real do trabalhador, para melhorar as condições de moradia, de saúde, de transporte e de educação? Por que o executivo não atua neste sentido, de forma efetiva, também? Será que isso afastaria os “investimentos” por tornar a mão de obra cara? Por que, por exemplo, não se resolve o grave problema das famílias do Assentamento 20 de Março, em Três Lagoas, que há dois anos moram em barracos, sem água potável e sem energia? Estes não têm direito a infraestrutura para permitir a produção e escoamento? Não merecem estradas e financiamentos?
 
Seria interessante participar de uma sessão da Assembleia em um alojamento improvisado dos operários da construção da Eldorado ou de outra empresa em Três Lagoas. Imaginem a cena de os deputados comendo a marmita que os operários comem e usando os poucos banheiros coletivos. Seria interessante ainda ver a presidenta Dilma, o governador Puccinelli e os deputados estaduais participando de uma grande festa guarani kaiowá realizada pela retomada das terras ocupadas por fazendeiros no sul do Estado. Será que um dia veremos os homens públicos legislando e administrando para o público?
 
Por fim, fica mais uma pergunta. Quem elegeu esses homens públicos: o voto do eleitor ou o capital? A resposta a esta pergunta deverá nos encaminhar à solução do problema da relação entre o público e o privado: se foram eleitos pelo ou por meio do capital, os deputados e os governos estão corretos então em legislar e governar para os interesses privados.