Sessão extraordinária da Assembléia legislativa no Assentamento Vinte de Março em Lagoas/MS

No dia 12 de dezembro de 2012 ocorrerá uma sessão extraordinária da Assembleia legislativa de Mato Grosso do Sul no assentamento 20 de Março em Três Lagoas. Na oportunidade os deputados irão homenagear com o título de cidadão sulmatogrossense todos os assentados e assentadas pela produção de alimentos saudáveis para a população três-lagoense e, de modo particular, para as crianças das escolas estaduais e municipais da cidade.

 
Os deputados estão imensamente sensibilizados com a iniciativa destas famílias em produzir alimentos sem uso de adubos químicos e de agrotóxicos. Estão impressionados com o grau de consciência ecológica destas famílias expresso na compreensão de que a natureza se revolta  contra as agressões que o homem pratica  contra ela ao envenenar sua carne (solo) e o seu sangue (a água). Eles estão comovidos porque estas famílias, assentadas há quatro anos, ainda aguardam por créditos públicos para organizar seus lotes, que é a morada da vida, e sua produção – que é seu trabalho. Por isso os deputados farão esta sessão solene como um gesto simbólico de comprometimento da Assembleia legislativa pela importância econômica e social que tem a agricultura familiar camponesa para o desenvolvimento do estado de Mato Grosso do Sul.
 
Os deputados querem parabenizar a belíssima iniciativa destas famílias de agricultores ao darem o exemplo para a sociedade sulmatogrossense de que é possível produzir alimentos saudáveis e de qualidade sem agredir o meio ambiente, sem  depender das grandes empresas multinacionais controladoras das sementes e insumos para a produção agrícola. Os deputados estão convictos de que este é o melhor caminho para a agricultura sulmatogrossense, ou seja, buscar a independência dos camponeses retirando-os das garras das empresas comercializadoras de sementes e agroquímicos. Empresas estas globalizadas e sem identidade  com a economia local, apenas interessadas em extrair o máximo de renda explorando nossos recursos naturais e nossa população agricultora.
 
Este é um fato raro e de grandeza ímpar, qual seja a realização de uma sessão extraordinária da Assembleia legislativa sulmatogrossense no assentamento Vinte de Março, mas que poderia ter sido realizada em qualquer outro projeto de assentamento da Reforma Agrária no Estado de Mato Grosso do Sul porque aqueles que produzem alimentos de consumo popular devem ser referenciados pelos homens que foram eleitos para representar o povo.
Com certeza o leitor deve estar perplexo, espantado, atônico com a notícia de um fato totalmente descabido na prática parlamentar da Assembleia legislativa de Mato Grosso do Sul. Infelizmente, você está completamente certo em seu espanto porque este noticiário não passa de uma utopia.
 
Porém, não é irreal um fato parecido com este, ou seja, a realização de uma  sessão da Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul fora da casa parlamentar no intuito de homenagear “heróis nacionais”. Mas, neste caso, os heróis são outros, e estão longe de serem assentados e produtores de comida. Trata-se de uma sessão no parque industrial da fábrica Eldorado Brasil, em Três Lagoas, por ocasião da  inauguração da citada fábrica no dia 12 de dezembro de 2012. A sessão objetivou homenagear com o título de cidadão sul-matogrossense o diretor presidente da Eldorado Brasil Celulose, José Carlos Grubisich.
Ainda que homenagear os donos ou representantes do poder econômico e político por parlamentares não é novidade, não se pode calar é diante do significado deste ato em especial neste momento grave pelo qual passam os pobres deste Estado. Portanto, esta prática de júbilo ao capital, por parte dos parlamentares sulmatogrossenses, deve ser lida como expressão do descaso com o genocídio das populações indígenas, com o abandono de milhares de famílias camponesas nos projetos de assentamentos da reforma agrária, com a paralisação da demarcação das terras quilombolas, com o caos da saúde pública.  
 
Este gesto da Assembleia legislativa é revelador do comprometimento dos parlamentares com o capital, seja ele nacional ou internacional. Explicita para quem legislam estes parlamentares. Escancara para a sociedade a quem serve este Estado, quem é seu patrão.
 
Por que não realizam uma sessão solene de entrega de títulos de cidadãos sulmatogrossenses aos Guarani Kaiowá em um dos mais de 30 acampamentos indígenas existentes no MS? Se não há nenhum artigo do regimento interno do funcionamento das sessões da Assembleia que impeça e sua realização dentro de um parque industrial, certamente não há  impeditivo  para sua realização em um  acampamento indígena. Portanto, a resposta a esta pergunta é política: ao deus capital tudo.
 
Mieceslau Kudlavicz
Agente da CPT/MS